Dia 3 – A Bordo do Connecting Europe Express – Por Carlos Cipriano, Jornalista do Público

MADRID – BORDÉUS
Às 6h14 é noite escura em Madrid, à hora em que o Connecting Europe Express parte da estação de Príncipe Pío, mas em breve o sol faz a sua quando, ultrapassada a serra, a composição atravessa as extensas planícies de Castela. Uma terra castanha, pueblos semi-desertos, gado que pasta à beira da linha.
As paragens são breves. Em Valladolid, Miranda de Ebro, San Sebastian e finalmente Irún, a última estação espanhola. A seguir cruza-se um rio e entramos em Hendaya, França, onde haverá mais uma cerimónia de boas vindas ao Comboio Europeu.
Mas aqui tudo muda. Despedimo-nos da velha composição espanhola. Estas carruagens Talgo terão feito a sua última viagem e devem ser em breve abatidas ou vendidas para o estrangeiro. Na plataforma ao lado está uma nova composição que é em si mesmo um exemplo de cooperação europeia na ferrovia: uma locomotiva francesa reboca uma carruagem húngara (transformada em espaço para exposições), uma carruagem alemã e outra francesa, esta última equipada com sala de reuniões onde irá decorrer uma conferência a bordo com quadros da SNCF. Segue-se a carruagem italiana, com bar e restaurante, e depois a suíça, sem dúvida a mais glamorosa de todas porque é uma carruagem panorâmica, envidraçada, que proporciona uma experiência de viagem ímpar. Por fim, uma carruagem-cama dos caminhos-de-ferro austríacos, uma montra de como é possível atravessar a Europa em viagens nocturnas confortáveis como se se estivesse num hotel.
A partida do Connecting Europe Express é feita em ambiente festivo e duas horas depois estamos em Bordéus onde os franceses não deixaram os seus créditos por mãos alheias para receber condignamente esta composição. A cerimónia incluiu uma longa sessão de discursos onde falaram as autoridades locais e regionais bem como responsáveis da Comissão Europeia e da SNCF. Como sempre, a tónica foi sobre as virtudes do modo ferroviário em termos de segurança, economia e sustentabilidade ambiental. Os políticos da Aquitânia não perderam, claro, a oportunidade para exigir ao Estado francês mais dinheiro para investir nas infra-estruturas ferroviárias.
Carlos Cipriano
• Carlos Cipriano, natural do Bombarral e residente nas Caldas da Rainha, é jornalista do Público e aceitou pro bono partilhar com o Europe Direct Oeste, Lezíria e Médio Tejo a sua experiência a bordo do Connecting Europe Express durante os próximos dias.
Laurent Montré, maquinista da SNCF que conduziu o Comboio Europeu na primeira etapa em França.
Pormenor da carruagem-cama austríaca.
Sandra Geada