Dia 4 – A Bordo do Connecting Europe Express – Por Carlos Cipriano, Jornalista do Público

BORDÉUS – TURIM
Das seis da manhã às nove e meia da noite. Toda uma jornada sobre carris, mas não se pense que é cansativo, monótono, ou desgastante. No Connecting Europe Express há espaço e tempo para muitas coisas, desde logo para dormitar, ler, ouvir música, conversar, trabalhar. Também se pode ir ao bar tomar um café, percorrer a composição heterogénea, que tem carruagens da Áustria, Suíça, Itália, França, Alemanha e Hungria. Há também as paragens técnicas, breves, onde os mais dependentes aproveitam para fumar um cigarro e outros para esticar a pernas na gare. Mas o melhor de tudo, o melhor mesmo, é desfrutar da paisagem.
Seis da manhã na estação de Bordéus. Ainda é de noite, mas à medida que o comboio europeu caminha para Leste, notam-se os primeiros raios de Sol a vencer a neblina, logo a bola de fogo a subir no horizonte, que é largo porque viajamos ao longo de uma região relativamente plana e muito verde.
Mautanban, Toulouse, Narbonne, Bésiers, Montpellier, Nîmes, Avignon, Valence, Lyon, Chambéry, É este o percurso. Para já.
A beleza aumenta quando nos encontramos com o rio Reno, que nos vais acompanhar durante quilómetros. E com as famosas colinas que o ladeiam, que dão o nome aos famosos vinhos Cotes du Rhone. O momento áureo da viagem é o maravilhoso lago Bourget, que o comboio circunda. A via férrea é mesmo ao lado da sua margem. Um deslumbre para recrear a vista, aumentado pela experiência de tudo isto ser visto desde o interior da carruagem panorâmica suíça.
Em Chambéry o Connecting Europe Express pára durante três horas, entre as 15h17 e as 18h08. Há um motivo forte: o ministro dos Transportes francês, Jean-Baptiste Djebbari, preside a uma cerimónia na estação relacionada com o arranque de uma grande obra ferroviária: uma linha de 65 quilómetros (dos quais 57 quilómetros em túnel) entre Lyon e Turim, que vai custar 8,6 mil milhões de euros (quatro vezes mais do que o programa em curso em Portugal, designado Ferrovia 2020, para a modernização das linhas portuguesas). A futura ligação transalpina será financiada em 25% pela França, 35% pela Itália e 40% pela União Europeia.
O troço final será de Chambéry a Torino, já na cordilheira dos Alpes, com uma paisagem de cortar a respiração. O Connecting Europe Express circula entre desfiladeiros, pontes e túneis, e desde a carruagem panorâmica a experiência da viagem é fantástica. Não é demais repetir: é uma maravilha viajar neste veículo envidraçado, através do qual avistamos os cumes das montanhas a rasgar o céu.
Em Modane, última estação francesa, a locomotiva Alstom dá lugar a uma locomotiva Ansaldo, de fabrico italiano. Depois há um túnel de 14 quilómetros no qual se entra em França e se sai em Itália. A fronteira estará lá algures no meio da escuridão. E é já noite escura quando, às 21h20 o comboio europeu faz a sua entrada na estação de Turim. Buona sera!
Carlos Cipriano
• Carlos Cipriano, natural do Bombarral e residente nas Caldas da Rainha, é jornalista do Público e aceitou pro bono partilhar com o Europe Direct Oeste, Lezíria e Médio Tejo a sua experiência a bordo do Connecting Europe Express durante os próximos dias.
Sandra Geada