“O comboio está no coração do imaginário europeu” – Por Carlos Cipriano, Jornalista do Público

O Connecting Europe Express, que partiu de Lisboa a 2 de Setembro, chegou a Paris a 7 de Outubro, depois de uma viagem de 20 mil quilómetros ao longo de 26 países.

Teve alguns percalços: partiram um vidro à carruagem alemã e a carruagem francesa teve uma avaria.

Na República Checa, amigos do alheio roubaram-lhe o que puderam, desde sacos do lixo aos routers que asseguravam a Internet a bordo. E entre a Dinamarca e a Suécia, durante a travessia de um extenso túnel sobre o mar do Oresund, todos os passageiros tiveram de ficar fechados na carruagem-cama austríaca porque as autoridades dinamarquesas entenderam que as restantes carruagens não estavam homologadas para circular naquele troço.

Mas o que releva desta travessia por todas as geografias do continente europeu foi a forma como este comboio foi recebido por onde passou.

Desirée Oen, da Comissão Europeia (DG Move), que fez parte da tripulação, destacou a Roménia, Portugal, Grécia e Croácia como os países “mais acolhedores e mais calorosos” na recepção ao Connecting Europe Express. Em contrapartida, nos países nórdicos, a atitude foi mais fria.

“Imagina o que é chegarmos a uma pequena cidade da Roménia à meia-noite e meia e estar o presidente da Câmara e centenas de pessoas à nossa espera para nos saudar?”, recorda Desirée Oen.

Nas inúmeras localidades onde o comboio parou houve sempre cerimónias com autoridades locais e nacionais a dar as boas vindas ao Comboio Europeu, a sublinhar as vantagens do modo ferroviário face aos outros modos de transporte para uma mobilidade mais sustentável e, claro, a reivindicar também à Comissão Europeu mais investimento nos caminhos-de-ferro locais.

Mas havia também outro tipo de recepções, mais espontâneas e sentidas, como a que assistimos em Thionville (França) por um grupo de jovens do liceu La Providence, que receberam o comboio com bandeiras de todos os países europeus. Nesta cidade, perto da fronteira luxemburguesa, procedeu-se à troca da locomotiva daquele país por uma locomotiva francesa e o comboio prosseguiu o seu trajecto até Estrasburgo. Pelo caminho atravessou estações enormes, com dezenas de linhas, ramais para comboios de mercadorias, complexos industriais, alguns encerrados. Era esta a geografia económica da CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que esteve na origem da CEE e da UE.

Em Estrasburgo houve também discursos à chegada e uma cerimónia que durou a tarde inteira.

No dia seguinte, 7 de Outubro, para a última etapa do comboio até Paris, a SNCF pôs uma maquinista aos comandos do Connecting Europe Express. Ségolène le Montagner, 29 anos, foi, de alguma forma, uma das estrelas do dia. Jean-Pierre Farandou, presidente dos caminhos-de-ferro franceses, fez questão de assinalar que pretende mais igualdade de género num sector que é tradicionalmente masculino (e teve, por isso, uma salva de palmas muito espontânea).

O Comboio Europeu foi recebido na Gare du Lest com o Hino à Alegria, de Beethoven (também conhecido como Hino da Europa) e por uma série de individualidades, para além de algum público, onde predominavam jovens estudantes e ambientalistas.

Clément Beaune, secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus afirmou que “o comboio está no coração do imaginário europeu” pois basta olhar para a literatura e para o cinema do Velho Continente e ver a importância do caminho-de-ferro. E o ministro dos Transportes, Jean-Pierre Djebarri anunciou que o objectivo da França é duplicar até 2030 o número de passageiros e o número de toneladas de mercadorias transportados sobre carris. Um objectivo ambicioso, mas justificado pela importância do comboio no combate às alterações climáticas.

O Connecting Europe Express foi uma iniciativa da Comissão Europeu com o objectivo de promover o uso do comboio como meio de transporte durável, acessível, económico, rápido, seguro e sustentável.

 

Carlos Cipriano

Jornalista

• Carlos Cipriano, natural do Bombarral e residente nas Caldas da Rainha, é jornalista do Público e aceitou pro bono partilhar com o Europe Direct Oeste, Lezíria e Médio Tejo a sua experiência a bordo do Connecting Europe Express.

À saída do Luxemburgo.

Recepção ao comboio em Thionville por jovens do liceu La Providence.

Interior da carruagem panorâmica suíça, que fazia parte da composição.

Ségolène le Montagner, a maquinista francesa que conduziu o Comboio Europeu na última etapa entre Estrasburgo e Paris.

Jovem activista que reclama um maior investimento nos comboios nocturnos como alternativa às viagens aéreas de média distância.

Paris, a cidade destino do Connecting Europe Express.

Sandra Geada